Às vésperas da Copa do Mundo, homofobia preocupa na Rússia

A Rússia se prepara para acolher torcedores do mundo inteiro durante a Copa do Mundo, que começa no dia 14 de junho. Como em qualquer evento esportivo global, são esperados visitantes de várias nacionalidades, etnias, mas também de diferentes orientações sexuais e identidades de gênero. Porém, o país é frequentemente apontado por episódios de homofobia latente, inclusive nas grandes cidades. Para as associações locais, os turistas não correm risco, mas isso não quer dizer que as autoridades russas estão dispostas a aceitar as diferenças.

Em janeiro de 2018, os russos Pavel Stotsko e Evgeniy Voytsekhovsky realizaram o sonho do casamento. Como a união entre pessoas do mesmo sexo não é autorizada em seu país de origem, os dois rapazes foram até Copenhague, na Dinamarca, onde o casamento gay é autorizado. Empolgados com a festa, eles compartilharam a alegria do momento nas redes sociais, com fotos da cerimônia e dos documentos carimbados.

O que os dois recém-casados não imaginavam é que essas imagens iriam torná-los imediatamente personae non gratae na Rússia. Graças a uma falha do sistema legislativo russo, que reconhece automaticamente os casamentos celebrados do exterior, ao voltarem a Moscou, Stotsko e Voitsekhovsky tiveram seus documentos carimbados pelas autoridades russas. Sem querer, a repartição pública consolidou o primeiro casamento gay do país.

O governo logo se deu conta do erro, mandou embora o funcionário responsável pela carimbada embaraçosa, e cancelou os passaportes dos rapazes. Mas já era tarde demais: os dois começaram a ser ameaçados, com telefonemas anônimos, e tiveram internet e eletricidade cortados, sem nenhuma explicação. Temendo as represálias, inclusive da polícia, que passou a coagi-los na porta de casa, os dois deixaram o país às pressas.

O episódio é apenas um exemplo do tratamento dado às minorias sexuais no país. Pressionada pelo Conselho da Europa, ao qual Moscou pretendia aderir, a Rússia descriminalizou a homossexualidade em 1992. No entanto, os LGBTQ continuam sendo mal vistos na sociedade. Segundo um estudo independente, divulgado no início deste ano, 83% dos russos consideram a homossexualidade como algo “condenável”. E essa opinião, presente inclusive entre os menores de 30 anos, vem aumentando nas últimas duas décadas, de acordo com a mesma pesquisa.

Homofobia também nas grandes cidades

Os crimes visando a comunidade LGBTQ dobraram em cinco anos, segundo um estudo do Center for Independent Research, publicado em 2017. E esses ataques acontecem em toda a Rússia, inclusive nos grandes centros, como aponta o músico Erik, que vive na capital russa. “Eu morei em muitos países e posso garantir que Moscou é como um outro planeta quando o assunto é tolerância. As mentalidades não evoluíram e as pessoas não têm a mesma abertura que podemos constatar no exterior, seja sobre questões de raça ou de sexualidade”, comenta o jovem, sem dar detalhes. “Acho que os russos ainda vão levar uns 100 anos para evoluir”, diz Erik, que não esconde o seu pessimismo.

ódio explicito

Um vídeo publicado  na conta do Youtube da TV ChebuRussian revela a homofobia de pelo menos uma parte da sociedade russa. A gravação mostra um casal de homens que recebe insultos e alguns empurrões ao passear de mãos dadas pelas ruas do centro de Moscou. As imagens já tiveram mais de 900.000 visualizações em apenas 24 horas. Há dois anos, o país aprovou uma lei que proíbe a chamada “propaganda gay”, considerando que visibilidade dos homossexuais é um crime.

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