Muito bem construida, a trama “Onde Nascem os fortes” é o melhor produto da Globo.

Digna de Superprodução cinematográfica “Onde Nascem os fortes” fez os críticos mais exigentes caírem de quatro com elogios


No ano passado, ao lançar Os Dias Eram Assim, a Rede Globo alterou a nomenclatura do que vinha sendo chamada, desde 2011, de “novela das onze” para “Supersérie”. Segundo a própria emissora, a mudança de nome se deu em razão da percepção de que as tramas exibidas no horário vinham se tornando um produto híbrido, pois mesclavam a estrutura clássica das novelas com o estilo de narrativa das minisséries.

As novelas são teledramaturgias, ou seja, adaptações de dramaturgias para a televisão e se enquadram como uma narrativa seriada e com um formato padrão: capítulos diários, sequenciados (normalmente de segunda-feira a sábado), com duração média de 50 minutos. Ela tem de 140 a 210 capítulos, que duram em média de seis a oito meses. Quanto ao texto, a telenovela vai se desenrolando durante sua exibição, ou seja, não possui um texto fechado. O autor define personagens e a história inicial e o desenvolvimento desta vai acontecendo levando em conta fatores externos (como recepção, audiência e opinião do público).

Hermano (Gabriel Leone) e Maria (Alice Wegmann)

Já a Minissérie é um folhetim televisivo de curta duração. O que diferencia as telenovelas e as minisséries é, principalmente, o cuidado com a produção, além do fato de ser uma história fechada, ou seja, autor, diretor e elenco já sabem toda a trama de antemão, o que facilita na composição dos personagens, já que o ator pode fazer seu trabalho direcionando por um caminho que já conhece. Além disso, as minisséries ousam mais em termos de temática, cenas, diálogos e situações.

Camila Mardilla, Irandhir Santos e Maeve Jinkings; Com teatro a céu aberto, atores exploram o essencial da interpretação

Flavio Vinicius Cauduro, em seu artigo “Pós-modernidade e hibridações visuais”, explica que hibridação é uma mistura de elementos visuais heterogêneos que normalmente não apareceriam juntos numa mesma representação clássica ou moderna devido a convenções e regras estilísticas e as imagens que produzem a hibridação são aquelas que articulam a mistura e a combinação das mais distintas possibilidades de comunicação numa única representação.

O arquiteto Saleh Uddin sistematiza em seu livro Hybrid Drawing Techniques by Contemporary Architects and Designers (1999) as possibilidades de produções híbridas em três categorias básicas: fusão e superimposição de ideias, mídias e técnicas. Defende também que as hibridações mais complexas são aquelas que apresentam mais de uma categoria. A ideia da “supersérie” se enquadra em todas.

Como Nilson Xavier explicou, em 2017, na sua coluna, a nova nomenclatura “supersérie” foi uma decisão estratégica, visando também o mercado internacional, em que as séries têm um poder maior de penetração. Editado em mais de 80 capítulos, o produto é muito longo para ser chamado de série, mas também não condiz com o que conhecemos como a clássica telenovela.

Em 2011, quando o remake de O Astro inaugurou a faixa das 23h para novelas, foi cogitado chamá-la de “macrossérie” ou “mininovela”. Na época, o diretor Mauro Mendonça Filho chegou a falar que era uma aposta em um novo horário e em um novo formato, com o objetivo de atrair o público de minissérie que queria ver uma obra feita com mais cuidado, mas sem abandonar o público de novela que gosta de acompanhar por um tempo maior a história.

O produto é muito longo para ser chamado de série, mas também não condiz com o que conhecemos como a clássica telenovela.

Entretanto, em 2017, Os Dias Eram Assim não fez jus ao título “supersérie”. A história tinha uma produção caprichada e bons atores, mas pecava na história central rasa, que nada mais era que um típico amor impossível tendo como pano de fundo a ditadura militar. Foi uma teledramaturgia tradicional, que ganhou um tom mais adulto apenas por algumas sequências mais ousadas de nudez ou violência.

Jesuita Barbosa na pele de Ramirinho, o filho do Juiz que se transforma em Shakira do Sertão é talvez a grande proeza e ousadia da supersérie .

Agora, com Onde Nascem os Fortes, nova produção da Rede Globo, que estreou em abril deste ano e deve terminar na próxima sexta 20.07, assinada por George Moura e Sergio Goldenberg, a história é outra. Em seus dois primeiros capítulos, a trama mostrou que vai além do folhetim. Não que a trama ignore os elementos clássicos da narrativa televisiva diária, mas a história procura se colocar de maneira diferente. A apresentação dos personagens, por exemplo, fugiu do lugar-comum e os protagonistas foram apresentados em ação, em sequências que não entregaram tudo de bandeja ao espectador.

A trama é recheada de amores e mistérios e se passa no sertão Nordestino, na Paraíba, apelando para um conflito de cores fortes e o contraste entre a modernidade e o coronelismo arcaico. Sertão, a cidade fictícia, consegue fugir aos estereótipos sertanejos mais batidos. O cenário atualizado mostrou que, apesar das mudanças, a região preserva algumas de suas antigas características. É uma história que promete fazer o telespectador pensar, e não apenas se entreter, em frente à TV. Os autores já mostraram que para entender a trama é preciso muita atenção do público em cada detalhe.

Com a assinatura da dupla responsável por grandes trabalhos como O Rebu, Amores Roubados e O Canto da Sereia, a nova supersérie tem todos os ingredientes de uma superprodução cinematográfica, além da impecável fotografia e paisagens deslumbrantes do sertão, já que foi toda gravada na Paraíba. Ingredientes que se agiganta aos olhos do público.  As atuações fortes, trilha sonora marcante e cenários de tirar o fôlego são atrações à parte. O elenco conta com nomes como Alice Wegmann, Marco Pigossi, Gabriel Leone, Alexandre Nero, Fábio Assunção, Patrícia Pillar, Jesuíta Barbosa, Débora Bloch e Enrique Diaz.

Enrique Diaz incrível e instigante na pele do Delegado Plínio

A protagonista Maria (Alice Wegmann) é outro ponto positivo. Ela faz com que o telespectador esqueça tudo o que sabe sobre heroínas. A atriz definiu a sua personagem como “mulher forte, sem medo”, uma verdadeira “cangaceira do sertão moderno”, e “uma heroína feminista”, que peita o machismo e o assédio.

A produção conta com uma trilha musical diversificada, com músicas interpretadas por vozes consagradas como Elton John, Caetano Veloso, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Amelinha, Fagner, Gal Costa, Milton Nascimento e Zeca Veloso. E junto a esses cantores, novos nomes também estão presentes: Alice Caymmi, Rubel, Jesuton, Johnny Hooker, Naiara Azevedo e Ibevi (veja aqui).

Amor, violência ao extremo, sexo e corrupção. Histórias intensas, em meio a cenas eletrizantes, prometem impactar o telespectador e agradar tanto aqueles que curtem uma boa novela, como aqueles que preferem um produto mais bem cuidado, tanto na narrativa quanto na direção. Por isso mesmo, deixará saudades quando terminar. Enquanto isso, vale conferir as emoções finais!

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